Dedico crônica do amigo e escritor Yves Dumont em homenagem aos 458 anos da cidade de São Paulo.

Texto retrata o interessante sentimento da nossa relação com a cidade, na sabedoria com visão otimista, humana e plural, além é claro, da genialidade e arte de quem domina bem as palavras.

Espero que gostem!

SP458

Toda vez que um avião levanta voo e minha cidade vai ficando para trás, a velha sensação de saudade antecipada começa a remoer minhas entranhas. Os problemas com os quais me defronto em cada esquina, todos temas do meu rosário de lamúrias cotidianas, parecem distantes, irreais, frutos da intransigência de um ranheta inveterado. E a vontade de voltar, de rever essa Paulicéia fascinante, surge soberana para perdurar durante toda a viagem.

Como explicar a relação ambígua que cada um de nós exercita na convivência com a cidade? Como justificar que, num passe mágica, a crítica sistemática dê lugar a um banzo teimoso, que nenhum cenário de primeiro mundo é capaz de apagar? Como entender que nem bem o avião decola e já nos esquecemos do trânsito caótico, da poluição, das inundações apocalípticas, do lixo nas calçadas, dos rios fétidos, da falta de transporte público e de moradias decentes?

O que tem, enfim, essa São Paulo de tantos e tão profundos contrastes, para ser capaz de nos irritar profundamente a cada dia, mas, ao mesmo tempo, nos fazer reféns eternos de seus encantos? Uns dirão das alternativas que ela oferece para quem quer ganhar a vida. Há os que lembrarão a excepcional qualidade das atividades culturais que abriga. Outros que sua vida noturna é mais luminosa e que a comida que aqui se oferece é única. Alguns comentarão seu friozinho gostoso e a boa garoa que às vezes ainda marca presença. Outros mais citarão seu coração generoso, que, no melhor estilo materno, a todos abriga.

Acho sinceramente que é tudo isso, mas não é só. Para mim, o que faz de São Paulo uma cidade única, o que a diferencia mesmo, é o fantástico, incomparável espírito de fraternidade, inerente a todos os que aqui vivem e que imediatamente contagia os que por aqui aportam.

É isso que a transforma em um cenário sem paralelos, capaz de reunir em familiar convivência cotidiana representantes das mais diversas origens, raças, cor, credo ou classe econômica. E de propiciar cenas inimagináveis em qualquer outra cidade do mundo. Como a de judeus e palestinos orando juntos pela paz impossível entre seus povos; ou a de japoneses e coreanos como cordiais concorrentes comerciais em uma mesma rua; ou ainda a de um nórdico campeão de capoeira ou a de um oriental que brilha na bateria de uma de nossas escolas de samba.

É dessa São Paulo que morro de saudades nem bem começo uma nova viagem. Abrigo aconchegante, maior do que os problemas ou a inoperância dos que a têm governado através dos tempos; cidade única, capaz de criar uma nacionalidade adicional para todos os que acolhe. Porque aqui, independentemente de sermos brasileiros, italianos, portugueses, árabes, espanhóis, mineiros, nordestinos ou de qualquer outra origem, das tantas que a cidade esconde em cada esquina, somos todos paulistanos. Com muita honra…