O futuro do futebol brasileiro – Daniel Bryan

2012 chegou e junto o recomeço, a nova perspectiva, uma chance de poder fazer diferente, melhorar, traçar metas e trilhar novos desafios.

Faço uma reflexão inspirada na final do mundial de clubes, conversas com amigos e um ano novo para o bom futuro do futebol.

Acompanhei a grande e tão esperada final do mundial de clubes entre o melhor da américa, representado pelo Santos, e da Europa, pelo Barcelona. Na semana que precedeu o jogo, confesso que via o Santos campeão, pelo futebol que apresentou durante a campanha, seus ídolos e os boatos tão positivos que a mídia criou.

No rolar da bola, logo nos primeiros minutos, notei que a minha expectativa foi totalmente ingênua, pois o Santos não conseguia a posse de bola, trocar passes, construir jogadas. Nossos heróis assistiam em campo uma equipe tão cadenciada, compacta, antecipada, ágil e coletiva, que até as jogadas mais previsíveis, aquelas que todos veem em replays, games – agora repetiam-se como uma grande brincadeira.

Segundo tempo nada mudou, Muricy, “atualmente o técnico mais vencedor”, assistia ao jogo abatido, assustado, sem nada a fazer. Enquanto isso, a narrativa “global” idolatrava Barcelona, que nos dias anteriores, Santos era o máximo com chances claras de ser campeão, o jeito aqui era desligar o som.

Nas saídas de bolas do Brasil, que costuma ser um tédio, ali estavam três ou quatro do Barcelona marcando… chutões eram a saída mais digna. Barcelona dominava, limpava o lance, não vimos um passe de bola errado ou na “fogueira” para o companheiro. Já o Santos, o jeito foi levantar a cabeça, reconhecer a “superioridade” do Barça e torcer para que o jogo terminasse o mais rápido possível.

O time do Barcelona joga com os atletas vindo de trás, tocando a bola e penetrando na área adversária, seu esquema tático foi 3-5-2, variando para o 3-6-1 e 3-4-3, o Santos foi 3-5-2 retrancando pela zaga. A posse de bola foi 29% contra 71% do Barça, ou seja, Santos não jogou.

A partida foi uma verdadeira aula do futebol moderno e mostrou nossas fragilidades. Na mente e coração, logo vem o complexo de “vira lata” e pensamentos confusos, do tipo: “eles tem mais grana que agente“, “pressão política“, “CBF corrupta“ – mas, Espanha atualmente está quebrada, dos 11, 9 craques foram formados na base, eles mantém uma cultura de trabalho a anos.

Sinceridade, 4×0 foi pouco!

Então Santos amarelou? Ainda bem que não foi o São Paulo! rs.

Vida em rede

Hoje o mundo vive conectado nas redes, numa lógica coletiva e colaborativa. O pensamento plural é mais importante do que o individual. Esta lógica também é aplicada em grandes empresas modernas, como Google, que optou por fazer horizontal hierarquias e processos produtivos antes verticais. O resultado? Coisas surpreendentes! Imaginou esta cultura dentro de campo? Barcelona faz.

A lição

Para o técnico campeão do mundo, Pep Guardiola, a resposta está no próprio futebol brasileiro. “Não é isso o que o Brasil fazia?”, indagou. “O Barcelona passa a bola como meu pai falava que vocês (brasileiros) faziam”, discursou após título.

Quais os desafios?

Na minha opinião, o jogo representou em campo o melhor time do Brasil, com os melhores jogadores, melhor técnico, melhor campanha como clube, as melhores jogadas… o problema foi contra quem jogamos, o nosso melhor está muito aquém do futebol europeu e abriu espaço para muitas coisas que precisam ser repensadas.

Tá na hora de ver o futebol brasileiro além das glórias do passado da camisa amarelinha. Ele não pode mais ser pensado como fábrica de refrigerantes, que enlata e rotula conteúdo. Futebol é mais do que isso… é um esporte visto como elemento constitutivo da nacionalidade com contribuições em nossa formação social (ver Gilberto Freyre).

Hoje, futebol brasileiro é um mix de irresponsabilidade individualista de craques celebridades, somado a moralidades religiosas, visível por todos na era Dunga. Ambas as facetas do nosso esporte são em boa parte produto histórico de um tratamento paternalista dado por dirigentes, técnicos e grande imprensa em relação aos atletas, além de distorções provocadas pelo marketing da bola.

Técnicos são verdadeiros chefes de produção, simplificam seu trabalho entre montar uma boa defesa e tentar no contra ataque, usam a bola parada como especialidade e justificam o medíocre trabalho na instabilidade do cargo que ocupam, que terá validade condicionado em passar para próxima fase com alguns pontinhos.

Os clubes não ligam mais para as categorias de base e apostam em talentos a partir de critérios físicos e midiáticos. Voltam velhos bons jogadores que pouco estimulam o nosso futebol, somente pela fama e o nome para o clube poder arrecadar mais verba.

Sem contar o intocável Ricardo Texeira e seus comparsas, que a cada dia aparecem denúncias de corrupção, mas “nem Deus tira ele do cargo” conforme suas próprias palavras.

Concluindo, a atuação do Barcelona não foi somente um banho de bola, estampou para o mundo quais são os dilemas e desafios para o nosso futuro. Não temos um pequeno problema de “entressafra” de jogadores e sim uma crise de concepção, valores e identidade – do jeito que está, estamos muito longe de ter uma seleção que possa ser campeã do mundo.

Talvez o futuro do futebol brasileiro esteja no futebol do futuro mostrado pelo Barcelona.

O que você pensa sobre as perspectivas do nosso futebol?